Não havia, para a viúva Mazza, prazer maior do que fazer sorvetes. Proprietária da sorveteria mais bem vista de Petrópolis, era visitada por todos os cariocas que subiam a serra fluminense. Até mesmo para aqueles que costumavam ir mais longe, Petrópolis costumava ser uma parada tradicional para pegar os melhores picolés do Rio de Janeiro antes de seguir viagem.

As semanas eram longas e trabalhosas, mesmo porque os sorvetes eram apenas um dos produtos oferecidos pela Leiteria Central de Petrópolis, aberta por dona Mazza em 1935. Mas eram, de longe, os que ela mais gostava de fazer. A viúva fazia questão de usar somente o melhor leite fornecido na cidade, e as frutas que ela e seus filhos colhiam na fazenda da família.

A fila para entrar na leiteria costumava dobrar as esquinas. Todos amavam a textura cremosa e gelada, como se fossem picolés que nunca de fato congelavam, estando sempre prontos para derreter dentro das bocas e impressionar o palato. Idosos, jovens, crianças, todos vinham degustar os sorvetes.

Era assim que era feliz. Passava a semana trabalhando em suas receitas, aprimorando picolés e preparando-se para as grandes vendas que ocorriam aos finais de semana, sobretudo aos domingos. Quando chegava a estação boa de qualquer fruta, dona Mazza se sentia na obrigação de aumentar o cardápio com uma criação da época. Se era a qualidade que mais importava, não poderia ignorar o momento em que os ingredientes estariam melhores.

O primeiro picolé da forma era sempre dividido entre as crianças da família, e só se elas o aprovassem os outros seriam vendidos. Era um controle de qualidade bem humorado, mas rígido, do qual ela fazia questão. Se o paladar especializado das crianças não aprovasse o primeiro picolé, então algo com certeza estava errado com a receita.

Aos finais de tarde dos domingos, depois que o último cliente saía satisfeito da leiteria, a senhora Mazza costumava sentar-se com os filhos enquanto escrevia as receitas que havia usado na semana em seu livro. As crianças, ainda com as bocas lambuzadas de sorvete, reclamavam que eram precisos pelo menos dois picolés para que ficassem satisfeitas. A mãe sorria e dizia que ainda não dava para fazer picolés maiores, mas que um dia ela os faria.

Com o passar dos anos, a Leiteria Central de Petrópolis encerrou suas atividades. O livro de receitas da viúva ficou perdido por entre as posses da família, até ser recentemente encontrado pelos bisnetos, que mal conheciam a história da bisavó. Repleto de páginas e mais páginas de segredos, eles encontraram, ao final, um pedido de dona Mazza para que os picolés se tornassem uma herança da família, uma tradição que lhes traria tanto prazer quanto trazia a ela. E foi assim que decidiram reviver as receitas dos picolés mais cobiçados pelos cariocas. Respeitando os ideais mais fervorosos da bisavó: a qualidade dos ingredientes acima de qualquer outra coisa e muito carinho pelo sorvete. Mas resolveram escutar o que os avós ainda repetiam sobre o tamanho, que precisava ser pelo menos o dobro para saciar um amante de picolé.